São Paulo investiga possível atuação “fantasma” de secretária de ex-presidente do Conselho
O São Paulo demitiu nesta quarta-feira uma secretária ligada a Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo do clube. A decisão foi tomada depois de ser aberta uma investigação para apurar uma possível atuação “fantasma” da funcionária.
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Em um comunicado enviado aos conselheiro, Olten Ayres defendeu a legalidade do trabalho de sua assistente e criticou a demissão (veja a íntegra no fim da reportagem).
– A demissão, nesse contexto, não pode ser analisada de forma isolada. Ao contrário, apresenta-se como medida arbitrária, desproporcional e sem justificativa razoável, sobretudo diante da inexistência de qualquer conduta que desabonasse sua atuação profissional no Clube – escreveu Olten.
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Olten Ayres, presidente do Conselho do São Paulo
Bruno Giufrida
O presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo também explicou dois dos pontos centrais da suspeita do clube em relação ao trabalho de sua secretária: o trabalho remoto, ao contrário dos outros colaboradores do Tricolor, e o uso de um e-mail externo.
– É importante esclarecer que o trabalho remoto da colaboradora não foi adotado de forma posterior ou excepcional. Trata-se de condição existente desde o momento de sua contratação, considerada a sua situação profissional à época e a possibilidade de atendimento às demandas administrativas da Presidência do Conselho Deliberativo nesse formato, sem prejuízo à rotina, à eficiência ou à disponibilidade exigida pela função.
– Quanto à utilização de e-mail externo, esclareço que a medida possuía caráter exclusivamente técnico, organizacional e de segurança da informação. Diante do ambiente político sensível vivido pelo Clube, a adoção de canais específicos de comunicação buscava preservar o sigilo, a integridade das informações e a proteção de tratativas relacionadas ao Conselho Deliberativo – completou Olten.
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Entenda o caso
Antes da demissão, o ge apurou que os registros de ponto da funcionária, preenchidos manualmente todo mês, apresentam horários idênticos, sem nenhuma variação de um minuto sequer. Em meses variados, por exemplo, seu horário de trabalho registrado em um documento enviado ao São Paulo foi exatamente das 8h às 17h48, com intervalo de 13h às 14h.
Este registro é enviado por e-mail pela funcionária ao departamento de Recursos Humanos do São Paulo ao fim de todo mês. O envio, porém, não é feito de um endereço com domínio interno do clube, o “saopaulofc.net”. Os dados são enviados de um e-mail que termina em “abreujr.com.br”.
Esse é o domínio utilizado pelo escritório de advogados que tem Olten Ayres como sócio principal, como admite o próprio presidente do Conselho.
A secretária foi contratada em dezembro de 2021, sob a gestão de Julio Casares. Hoje, seu salário é de pouco menos R$ 7 mil e a jornada é registrada apenas por folha de frequência, porque ela não dá expediente no Morumbis ou na Barra Funda. O clube, porém, não utiliza o regime de home office no dia a dia, com apenas algumas exceções esporádicas.
O Conselho Deliberativo do São Paulo possui duas secretárias que atuam no Morumbis à disposição dos conselheiros para vista a documentos que passaram pelo órgão para votação ou apreciação, por exemplo. Diversos conselheiros ouvidos pelo ge alegam não conhecer essa funcionária de Olten Ayres.
Tensão política
O clima nos bastidores do São Paulo é tenso. Nas últimas semanas, Olten Ayres e o presidente Harry Massis entraram em rota de colisão. O dirigente foi à Comissão de Ética pedir a saída de Olten por gestão temerária no Conselho Deliberativo.
Olten Ayres respondeu protocolando um pedido de impeachment contra Harry Massis apontando a ausência de dois membros independentes no Conselho de Administração do clube, quebrando o que pede o regimento interno. O presidente, porém, preencheu as duas vagas e diminuiu a força do pedido.
Dias depois, a Comissão de Ética do São Paulo atendeu ao pedido de Massis e recomendou o afastamento preventivo de Olten Ayres, enquanto investiga a possível gestão temerária. Esse afastamento será votado pelo Conselho Deliberativo na próxima semana.
Olten Ayres é visto, nos bastidores, como um antigo aliado de Julio Casares. Publicamente, o presidente do Conselho Deliberativo já negou qualquer favorecimento ao ex-dirigente e proximidade a ele no dia a dia.
A íntegra do comunicado de Olten Ayres
“Prezados Membros do Conselho Deliberativo,
Em atenção a recentes questionamentos envolvendo a rotina administrativa desta Presidência, e em respeito ao dever de transparência perante este colegiado, apresento os esclarecimentos necessários.
A Presidência do Conselho Deliberativo exige o apoio de profissionais de absoluta confiança, em razão do acesso a temas institucionais, estratégicos e sensíveis. Nesse contexto, a colaboradora exerceu suas funções, desde 2021, em regime remoto desde sua contratação, com dedicação integral de sua jornada de trabalho às atividades vinculadas ao São Paulo Futebol Clube.
É importante esclarecer que o trabalho remoto da colaboradora não foi adotado de forma posterior ou excepcional. Trata-se de condição existente desde o momento de sua contratação, considerada a sua situação profissional à época e a possibilidade de atendimento às demandas administrativas da Presidência do Conselho Deliberativo nesse formato, sem prejuízo à rotina, à eficiência ou à disponibilidade exigida pela função.
A colaboradora, como os demais profissionais vinculados ao Clube, sempre esteve submetida aos mecanismos internos de controle administrativo aplicáveis, incluindo o sistema de controle de ponto utilizado pelo São Paulo Futebol Clube.
Entre suas atribuições estava o apoio administrativo e operacional à Presidência do Conselho Deliberativo, incluindo a gestão integral da agenda institucional e o controle de compromissos necessários à adequada organização da rotina desta Presidência. Essa atividade compreendia, por necessidade logística, a coordenação de horários e compromissos pessoais do Presidente, exclusivamente para evitar conflitos com a extensa agenda institucional do Clube e assegurar que as demandas do São Paulo Futebol Clube fossem sempre tratadas com prioridade, eficiência e responsabilidade.
Cabe registrar que a existência de apoio administrativo junto às Presidências dos órgãos do Clube não constitui exceção, privilégio ou situação atípica. A própria Presidência da Diretoria Executiva conta com o apoio de quatro secretárias, enquanto outros órgãos institucionais também dispõem de profissionais de confiança para a organização de rotinas, agendas, compromissos e demandas administrativas inerentes às suas atribuições.
No caso específico do Conselho Deliberativo, além do apoio prestado à Presidência, há também uma Secretaria do Conselho, composta por colaboradoras responsáveis por dar suporte às atividades do colegiado, às suas rotinas administrativas e ao funcionamento institucional do órgão e de suas comissões. Essas profissionais exercem funções de apoio ao Conselho Deliberativo como um todo, não desempenhando atividades pessoais ou particulares em benefício do Presidente.
Quanto à utilização de e-mail externo, esclareço que a medida possuía caráter exclusivamente técnico, organizacional e de segurança da informação. Diante do ambiente político sensível vivido pelo Clube, a adoção de canais específicos de comunicação buscava preservar o sigilo, a integridade das informações e a proteção de tratativas relacionadas ao Conselho Deliberativo.
Cabe esclarecer, inclusive, que eu próprio não utilizo o e-mail institucional do São Paulo Futebol Clube, justamente por razões de segurança da informação, preservação de sigilo, rastreabilidade e proteção de comunicações institucionais estratégicas.
Diante disso, causa extrema preocupação a notícia de seu desligamento, especialmente porque, até onde é de meu conhecimento, não havia qualquer fato concreto, apontamento funcional, irregularidade administrativa ou elemento objetivo que pesasse contra a colaboradora.
A demissão, nesse contexto, não pode ser analisada de forma isolada. Ao contrário, apresenta-se como medida arbitrária, desproporcional e sem justificativa razoável, sobretudo diante da inexistência de qualquer conduta que desabonasse sua atuação profissional no Clube.
Mais grave ainda é o fato de que tal desligamento ocorre justamente após questionamentos direcionados à rotina desta Presidência, o que reforça a percepção de que a medida possa representar uma forma indireta de retaliação política à Presidência do Conselho Deliberativo e, em última instância, à atuação institucional por mim exercida.
Não se pode admitir que uma colaboradora seja penalizada, exposta ou desligada sem causa objetiva aparente, simplesmente por exercer suas funções junto à Presidência do Conselho Deliberativo, dentro de uma rotina administrativa conhecida, existente desde 2021 e submetida aos controles internos do próprio Clube.
Todas as decisões administrativas aqui esclarecidas sempre tiveram como finalidade proteger o São Paulo Futebol Clube, preservar a independência do Conselho Deliberativo e assegurar que suas atividades fossem conduzidas com segurança, organização, rastreabilidade e transparência. Por essa razão, manifesto minha preocupação com o desligamento da colaboradora e reitero a necessidade de que qualquer medida administrativa adotada pelo Clube observe critérios objetivos, impessoais, transparentes e compatíveis com os princípios de governança que devem nortear a instituição.”
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