Se o torcedor brasileiro imaginava que terminaria a estreia da seleção brasileira com a sensação de que vira jogar um futuro campeão mundial, provavelmente se frustrou. De todo modo, se o exercício for buscar notícias estimulantes da pálida primeira partida do Brasil no Mundial, será possível dizer que tantos campeões foram crescendo ao longo do torneio. O outro alento que se pode oferecer é que, provavelmente, o time vai passar de fase e, com isso, Ancelotti ganhará tempo. E é disso que ele vai precisar, porque em campo a equipe foi a cara do pouco tempo de trabalho, com um ciclo bagunçado, e uma comissão técnica que ainda busca acomodar uma série de jogadores que não parecem confortáveis com as funções que executam.
Coletivamente, o jogo teve momentos preocupantes. Mas, numa Copa do Mundo, talentos que ganham jogos podem ser cruciais. Hoje, foi o caso de Vinícius Júnior com o gol do 1 a 1. Resta saber se as capacidades de alguns jogadores serão suficientes o tempo todo.
Brasil 1 x 1 Marrocos | Melhores momentos | 1ª rodada | Copa do Mundo FIFA 2026
Talvez o ajuste feito a partir da parte final do primeiro tempo possa ter oferecido um caminho a Ancelotti. Porque o começo do jogo teve Marrocos claramente superior. Primeiro, porque o Brasil tem imensos problemas para defender. As distâncias entre os jogadores eram grandes, obrigando os volantes a cobrirem um pedaço de campo muito grande, o que deu a sensação de que Casemiro era um jogador muito pior do que todos sabemos que ele é. Ao perder a bola no lance do primeiro gol, como não tinha tantos jogadores próximos da bola, o Brasil não conseguiu pressionar para retomar a posse rapidamente e ficou exposto. No lance, falharam também os zagueiros.
A seleção se via inferiorizada com os movimentos de Saibari como um falso 9, com Brahim Diaz fechando da direita para o centro, e juntando os dois a Ounahi, El Khanouss e ao ótimo volante Bouaddi. O início marroquino foi claramente superior.
Quando o Brasil tentava atacar, a ideia de ter Paquetá partindo da direita e Raphinha da esquerda para formarem o setor de meio não funcionava. Havia poucas aproximações, raramente Raphinha infiltrava na área para aproveitar sua melhor característica e, tecnicamente, Paquetá não fazia grande partida. Para piorar, o sistema dava o corredor a Ibañez, que não parece confortável na função. Além disso, Igor Thiago ajuda pouco na articulação com bola no chão.
Ao perder a bola, Raphinha tinha uma longa distância a percorrer para cobrir o setor esquerdo, já que o time é desenhado para poupar Vinícius Júnior deste trabalho. Por ali, Marrocos controlou.
Já com o 1 a 1, no grande lance em que Vinícius fortaleceu a decisão de Ancelotti ao privilegiá-lo, o treinador italiano moveu peças. Raphinha passou para o lado direito, tirando de Ibañez a responsabilidade de cobrir todo o corredor, enquanto Paquetá passou a ser um meia com bola e, sem ela, o responsável por cobrir a esquerda. O Brasil se organizou para atacar num 4-3-3 e, como Marrocos já não era tão impetuoso, a seleção equilibrou mais as ações. De todo modo, Raphinha raramente recebia bolas para explorar suas melhores capacidades. Ficou aberto, longe da área, e chegavam a ele passes que o pegavam de costas para o ataque.
O segundo tempo trazia a sensação de que o Brasil poderia virar. Fabinho deu algo mais de consistência ao meio-campo, mas as trocas seguintes, com as entradas de Matheus Cunha e Luiz Henrique, funcionaram pela metade. A saída de Paquetá enfraqueceu o meio, mas Luiz Henrique deu a Raphinha a chance de jogar no centro do ataque, quase como um falso 9, e em alguns momentos se ver em condição de finalização. De todo modo, a segunda parte da etapa final já teve uma seleção com menos volume, que apostava em esticadas para Raphinha e Vinícius Júnior. Por outro lado, quando Marrocos conservava a bola, tampouco tinha poder de fogo na área.
Traço deste Mundial, o calor e o cansaço dos jogadores determinaram uma reta final de poucos riscos. No fim, o empate não parecia ser visto por nenhum dos dois times como um desastre.

