Antes que o debate seja interditado, é preciso deixar claro: este não é um manifesto a favor da torcida única nos estádios do Rio de Janeiro. Ao contrário, este jornalista é um entusiasta das cenas de convivência entre torcedores rivais nos setores mistos do Maracanã e entende que o mundo ideal é um estádio que possa receber gente com todas as camisas. É por esta realidade que precisamos trabalhar.
Ocorre que, em nome deste ideal, temos vendido ao público uma realidade distorcida. E não por má fé, mas pela mudança na forma de cobrir partidas de futebol. Hoje, o enxugamento de postos de trabalho praticamente extinguiu algo que era tradicional, por exemplo, no rádio carioca: repórteres que giravam pelo entorno do Maracanã e estavam presentes em diversos pontos. Vemos o produto final, que é o ambiente super controlado do interior do estádio, em que, de fato, pessoas convivem. Mas perdemos a noção do preço que tem sido pago para que tais cenas se produzam.
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Antes e depois do Flamengo x Vasco de domingo, o Maracanã foi uma zona de guerra. Não foi suficiente que a sociedade emprestasse ao futebol mais de 800 policiais e mais de mil agentes públicos, sem contar os quase 500 profissionais de segurança privada empregados na partida. A ostensiva presença de homens fortemente armados, por si só, já transforma o ambiente ao redor do Maracanã em algo distante de um local de lazer. A imagem é, por natureza, violenta.
O final do clássico foi marcado por famílias acuadas nas saídas do estádio, enquanto grupos organizados se enfrentavam, policiais atiravam bombas de gás e spray de pimenta, crianças e idosos passavam mal e, ainda mais grave no caso dos menores, associavam o futebol a traumas que podem perdurar pela vida. Uma das tantas balas de borracha que cruzavam avenidas atingiu um jovem de 18 anos, neste momento internado após perder a visão de um dos olhos.
A questão é que não se trata de caso isolado. Como perdemos o hábito de monitorar acesso e saída do público, já não temos a dimensão de que a rampa que leva à estação Maracanã do metrô e do trem, é habitual ponto de confrontos nos últimos anos: os últimos Fla-Flus tiveram cenas terríveis, assim como o Flamengo x Vasco do último Brasileiro. Outras ruas ao redor do Maracanã são pontos habituais de confronto, tornando chegada e saída uma operação tensa para qualquer família. Muitas destas pessoas não vão voltar. Ou, ao menos, não verão a ida a um jogo de futebol como sinônimo de pura diversão. É comum ver gente que bola planejamentos logísticos complexos para garantir que chegará e sairá do Maracanã com sua integridade preservada.
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Mas há outros preços altos que estamos pagando sem dar tanta atenção. Para garantir que haja duas torcidas, a polícia escolta os principais grupos das chamadas organizadas. Quem já teve o desprazer de presenciar a chegada de uma destas facções ao Maracanã certamente se horrorizou, a ponto de esquecer que estava a caminho de um evento esportivo. É uma caminhada tensa, fortemente armada, em que os elementos cercados tentam romper a todo instante a barreira policial, atiram bombas caseiras e levam tensão e medo por onde passam. O trajeto, por vezes, impõe que ruas sejam fechadas, trânsito interrompido. Tudo isso por um jogo de futebol.
Então, aqui, voltamos ao ponto inicial do debate. É possível defender as duas torcidas no estádio, e assim mesmo concordar que, no momento, o preço pago está alto demais. Faz sentido querer a convivência entre rivais no mesmo ambiente, mas admitir que nem mesmo o futebol do Rio de Janeiro, elogiado por abrigar nas arquibancadas gente que torce para diferentes times, vive o estado de controle que se apregoa. Ir a um clássico com torcida dividida no Rio é muito menos calmo e seguro do que se convencionou dizer, é uma experiência muito menos leve do que deveria ser um jogo de futebol.
Hoje, como o Brasil não avança em uma política nacional de segurança, como ainda é frágil para estabelecer controles sobre grupos organizados e, principalmente, como ainda é profundamente enraizada a cultura de que o futebol é um ambiente com leis próprias e permissividade diante de comportamentos violentos, o que vivemos é um dilema.
De um lado, os jogos de torcida única criaram ambientes menos violentos nos arredores dos estádios, tornando chegada e saída das famílias uma operação segura. No entanto, oferecem a triste imagem da nossa incapacidade de convivência, tirando do esporte e da educação de novas gerações um elemento essencial de aprendizado sobre a tolerância.
Do outro, clássicos com torcida dividida oferecem cenas bonitas, educativas. Sem contar o jogo dentro do jogo que é a competição entre um lado e outro do Maracanã para medir quem canta mais, quem faz a melhor festa. Mas o preço é a mobilização de exércitos de agentes públicos, armamentos pesados, confrontos, balas de borracha e bombas de gás que fazem o entorno do estádio respirar tensão, onde deveria haver celebração.
A torcida única é uma falência, as famílias acuadas e as crianças chorando em desespero também são. A torcida única é um paliativo, o jogo de futebol com mil agentes de segurança também é. Como não trabalhamos com o essencial, que é um plano eficaz de segurança em estádios, seguimos perdendo o jogo, qualquer que seja o caminho escolhido.

