Negociações entre Irã e EUA terminam sem acordo
Depois de uma noite sem dormir e de momentos de tensão no Paquistão, autoridades do Irã e dos Estados Unidos encerraram as conversas de mais alto nível entre os dois países em décadas sem um avanço concreto. Ainda assim, 11 fontes familiarizadas com as negociações afirmaram à agência Reuters que o diálogo permanece aberto.
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As conversas ocorreram dentro do luxuoso Serena Hotel, na capital Islamabad. Segundo a equipe operacional, as negociações foram divididas em três espaços: uma ala para a delegação dos EUA, outra para os iranianos e uma área destinada às reuniões trilaterais com mediadores paquistaneses.
Entre os principais temas discutidos estavam o Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano e as sanções internacionais impostas a Teerã. Os Estados Unidos prometeram trabalhar pela reabertura da passagem marítima.
Telefones não foram permitidos na sala principal. Por isso, autoridades como o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, precisavam sair durante os intervalos para transmitir mensagens a seus governos, segundo duas fontes.
“Havia uma grande esperança no meio das negociações de que haveria um avanço e os dois lados chegariam a um acordo. No entanto, as coisas mudaram em pouco tempo”, disse uma fonte do governo paquistanês.
Outra pessoa envolvida nas negociações afirmou que as partes chegaram “muito perto” de um entendimento e estavam “80% lá”, antes de esbarrarem em decisões que não puderiam ser resolvidas no local.
Duas fontes iranianas descreveram o ambiente inicial como pesado e hostil. Apesar das tentativas do Paquistão de reduzir a tensão, nenhum dos lados demonstrou disposição para aliviar posições.
Segundo as mesmas fontes iranianas, a atmosfera começou a melhorar no início da manhã de domingo (12), quando surgiu a possibilidade de estender as negociações por mais um dia.
Altos e baixos
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif (à direita), conversa com o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, antes das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã, em Islamabad. Foto divulgada em 11 de abril de 2026 pelo Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão.
Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão via AFP
Em Islamabad, adversários históricos se reuniram para tentar traçar um caminho para um acordo de longo prazo, após um cessar-fogo mediado pelo Paquistão interromper seis semanas de guerra que deixaram milhares de mortos e afetaram o abastecimento energético global.
No centro da disputa está a suspeita de países ocidentais e de Israel de que o Irã busca desenvolver uma arma nuclear — acusação negada por Teerã.
Uma autoridade da Casa Branca afirmou que Washington exige:
o fim total do enriquecimento de urânio;
o desmantelamento das principais instalações nucleares;
a entrega do material altamente enriquecido;
a aceitação de um acordo de paz mais amplo;
a criação de uma estrutura regional de segurança;
o fim do financiamento de grupos armados aliados ao regime iraniano;
a reabertura completa do Estreito de Ormuz sem cobrança de pedágio.
Já o Irã, segundo uma autoridade iraniana, apresentou demandas que incluem:
um cessar-fogo permanente e garantias contra novos ataques;
suspensão das sanções primárias e secundárias;
desbloqueio de ativos financeiros;
reconhecimento do direito ao enriquecimento nuclear;
manutenção do controle sobre Ormuz.
Quatro fontes disseram à Reuters que, em determinados momentos, o diálogo parecia próximo de resultar ao menos em um esqueleto de acordo. As negociações, porém, travaram diante de divergências sobre o programa nuclear, Ormuz e o volume de ativos iranianos congelados.
“Houve altos e baixos. Momentos de tensão. As pessoas saíam da sala e depois voltavam”, relatou uma fonte de segurança.
Um diplomata baseado no Oriente Médio disse que as conversas entre mediadores e representantes dos EUA continuaram mesmo após a saída de Vance de Islamabad. Outra fonte afirmou que o Paquistão segue transmitindo mensagens entre Teerã e Washington.
“Quero dizer a vocês que ainda há um esforço total para resolver as questões”, afirmou o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif.
Apesar dos obstáculos, ambos os lados têm motivos para buscar a redução da escalada.
Os ataques dos EUA enfrentam resistência interna e dificilmente derrubariam o sistema teocrático iraniano.
Ao mesmo tempo, o bloqueio do fornecimento de Ormuz pressiona a economia global e contribui para a alta da inflação meses antes das eleições legislativas nos EUA.
No Irã, os impactos econômicos da guerra também ameaçam enfraquecer o governo internamente, poucas semanas após protestos reprimidos com violência.
Desconfiança
Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi
REUTERS/Dilara Senkaya/File Photo
As negociações duraram mais de 20 horas. Funcionários do hotel permaneceram no local durante todo o período, trabalhando, descansando e se alimentando após passarem por verificações rápidas de segurança.
Quando as discussões chegaram às garantias de não agressão e ao alívio de sanções, o tom do chanceler iraniano Abbas Araqchi, normalmente descrito como moderado, tornou-se mais duro, segundo duas fontes iranianas.
Segundo elas, Araqchi questionou:
“Como podemos confiar em vocês quando, na última reunião em Genebra, disseram que os EUA não atacariam enquanto a diplomacia estivesse em andamento?”
O ataque conjunto israelense-americano ao Irã começou dois dias após aquela rodada anterior de negociações.
Além das divergências sobre Ormuz e sanções, os lados também discordaram sobre o alcance de um eventual acordo. Washington priorizava o tema nuclear e o estreito marítimo, enquanto Teerã defendia um entendimento mais amplo.
Em um momento de maior tensão, vozes altas puderam ser ouvidas do lado de fora da sala de negociações, antes de Munir e Dar solicitarem uma pausa para o chá e conduzirem as delegações de volta a salas separadas, segundo uma fonte do governo.
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‘Oferta final’
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, discursa durante uma coletiva de imprensa após reunião com representantes do Paquistão e do Irã, no domingo, 12 de abril de 2026, em Islamabad, Paquistão
Jacquelyn Martin/Pool via REUTERS
Nos momentos finais das discussões, já na manhã de domingo, delegados dos EUA passaram a circular com mais frequência entre a sala principal e a área privada da delegação, afirmou uma autoridade paquistanesa.
Uma fonte americana disse que o vice-presidente chegou às negociações com o objetivo de alcançar um entendimento rápido. Segundo ela, Washington mantém desconfiança em relação a negociações prolongadas com o Irã, por considerar que Teerã utiliza táticas de atraso e evita concessões.
Apesar do impasse, as declarações de Vance ao anunciar o fim das conversas indicaram que novas rodadas ainda são possíveis.
“Saímos daqui com uma proposta muito simples, um método de entendimento que é nossa melhor e final oferta”, afirmou. “Veremos se os iranianos a aceitam”.
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