Estamos realmente presenciando a Copa dos Craques. Em dois jogos, três dos principais nomes já mostraram seus serviços: Lionel Messi marcou todos os 5 gols da Argentina até aqui; Kyllian Mbappé já balançou a rede 4 vezes, mais da metade dos tentos da França; Erling Haaland já anotou 4 vezes, de uma Noruega com 7 gols.
O verdadeiro craque brasileiro nesta edição, Vinicius Jr, também deixou sua marca nas duas partidas que disputou. Ainda falta Harry Kane entrar em campo pela segunda vez e ampliar seu score de 2 gols (já são 10 em Copas); além de Lamine Yamal, que marcou pela primeira vez na segunda rodada, depois de ter poucos minutos contra a valente Cabo Verde na estreia.
Esse provavelmente será o assunto das próximas edições, mas vale também anotar que Lionel Messi já fez história: ultrapassou o alemão Miroslav Klose como o maior artilheiro da história das Copas, superando seus 16 tentos, e alcançando a marca inédita de 18 gols (veja sobre incrível coincidência do feito na seção Ludopédio).
Logo em seguida, foi a vez de Kyllian Mbappé superar o brasileiro Ronaldo e alcançar Klose, ao atingir a marca de 16 gols em Copas, número que muito dificilmente não será alargado nas próximas partidas.
O posto de maior artilheiro da Copa mudou algumas vezes neste século, mas durou décadas inalterado. O lendário Gerd Müller, com 15 gols atingidos em 1974, só viria a ser superado por Ronaldo em 2006. Agora, Messi e Mbappé devem esticar em muito essa marca.
Confira em qual edição alguém atingiu o posto de Maior Artilheiro da Copas:
1930 – Guillermo Stábile (Argentina) – 8 gols*
1950 – Ademir de Menezes (Brasil) – 9 gols
1954 – Sándor Kocsis (Hungria) – 11 gols
1958 – Just Fontaine (França) – 13 gols
1974 – Gerd Müller (Alemanha) – 14 gols
2006 – Ronaldo Nazário (Brasil) – 15 gols
2014 – Miroslav Klose (Alemanha) – 16 gols
2026 – Lionel Messi (Argentina) – 18 gols
*igualado por Leônidas da Silva (Brasil) em 1938
Mas, sigamos, porque tem assunto mais importante para tratar nesta altura.
Na Bancada
Um dos principais destaques da última janela de jogos foi a queixa sobre a famigerado “pausa de hidratação”, adotada pela primeira vez em Copas do Mundo. A medida foi elaborada cientificamente para preservar a saúde dos jogadores em situações de temperatura próxima, igual ou superior a 32ºC, levando em conta a temperatura do ar e a radiação da luz solar. Era para ser assim.
Eis que, partindo de um propósito válido, a FIFA tornou as pausas obrigatórias em todas as ocasiões, cedendo o futebol para uma nova camada de exploração comercial e causando uma alteração drástica e seriamente questionável na dinâmica do jogo.
Uma reportagem do jornal espanhol El País analisou o efeito das pausas de hidratação nos jogos da Copa do Mundo, constatando que 78% das partidas foram afetadas pela nova forma de dividir os jogos de futebol, indicando que a pausa “corta sequências ou muda qual equipe toma a iniciativa”.
Nas 56 pausas dos 28 primeiros jogos da Copa, ocorreram 24 mudanças de domínio de jogo. Em ao menos 20 pausas, notou-se que o time que vencia a partida perdeu o controle do certame. Daí vem algumas críticas.
Lionel Scaloni, atual campeão do mundo pela Argentina, questionou o novo futebol: “Eu diria que agora temos quatro tempos. São três minutos e meio para falar com os jogadores. Tudo o que você tem em mente para o jogo pode mudar nesses 22, 23 minutos. Essa coisa de quatro tempos parece irreal”.
O sempre polêmico Marcelo Bielsa foi mais duro: “Jogar quatro tempos em vez de dois altera a concepção e a cultura que foram construídas para interpretar o futebol. Essa mudança não acrescenta nada e tira muito”.
Diversos canais mostram como tem sido recorrente a reação de torcedores, com sonoras vaias, contra a pausa para hidratação. Até aqui, destacaram-se os casos de Inglaterra x Croácia, Panamá x Gana, EUA x Austrália, Países Baixos x Suécia… as imagens comprovam que há uma generalizada insatisfação com a “nova ordem” do futebol imposta pela FIFA.
Porque há uma percepção clara de que o objetivo real é a criação de um novo intervalo comercial em um esporte habituado a ser jogado com dois tempos de 45 minutos, mais acréscimos – enquanto luminosas e invasivas placas publicitárias cercam o campo.
Logo no início da Copa, Virgil Van Djik, capitão da seleção da Holanda (Países Baixos), questionou as pausas: “Sempre interromper o jogo para fazer publicidade é algo que não gosto. Para quem está assistindo pela TV, também não é muito agradável. Se estiver realmente muito calor, faz sentido haver essas pausas, mas penso que é preciso analisar cada jogo individualmente”.
Em seguida, Alistair Johnston, lateral do Canadá, questionou, após a vitória de 6 a 0 contra o Catar: “Provavelmente está rendendo algum dinheiro a mais para a FIFA. A pausa para hidratação virou um intervalo comercial”, jogando com os termos “hydration break” e “commercial break”, em inglês.
No mesmo tom, Thomas Christiansen, treinador do Panamá, atirou, após a derrota para Gana: “Não estava quente, mas a gente tem que aceitar que os anunciantes da televisão são os que estão pagando por todas essas coisas”.
A FIFA justifica que a imposição da pausa para a hidratação em todos os jogos se dá pela necessidade de buscar maior justiça esportiva. Uma vez que o jogo seria parado garantir o bem-estar dos atletas em algumas ocasiões, isso poderia estar em falta em outros casos, sendo necessário “garantir condições iguais para todos os times, em todos os jogos”.
O que é óbvio que não faz sentido. Nenhum jogo vai ter condições idênticas, porque o gramado pode estar irregular, o público pode estar mais ruidoso, o trânsito pode atrasar a chegada, o craque pode estar lesionado, a distância de viagem na prévia pode ser muito maior, o jogo anterior pode contar com acréscimos mais longos… Enfim, o futebol sempre esteve ciente que os jogos podem apresentar condições distintas e assim sempre foi.
Aliás, o site Al Jazeera consultou o meteorologista Everton Fox para constatar se as pausas estão sendo realmente necessárias. Embora reconheça que em algumas localidades a medida seja válida – como Nova York, Los Angeles e no México -, o especialista vê exageros na adoção das pausas em estádios climatizados em Dallas, Houston, Atlanta e Vancouver: “Eu sei que FIFA alega que faz isso em todos os jogos para ser consistente, mas é difícil ver isso como algo além de uma estratégia comercial que gera milhões de dólares em publicidade”.
De acordo com a BBC, um comercial de 30 segundos na Fox Sports, detentora dos direitos da Copa nos Estados Unidos, estaria custando entre 200 e 300 mil dólares, com projeção de valer até 750 mil dólares em jogos da seleção norte-americana, bem como em jogos das fases finais.
A Copa Além da Copa
Nesta edição, os companheiros do Copa Além da Copa trazem a curiosa aparição de três monarcas em dois jogos no mesmo dia – tal e qual um Gianni Infantino passeando de jatinho particular pelas várias sedes da Copa.
O rei Willem-Alexander, a rainha Máxima e a princesa Ariane prestigiaram a acachapante vitória dos Países Baixos sobre a Suécia (5 a 1), e logo depois testemunharam o primeiro ponto da estreante Curaçao em uma Copa do Mundo, no empate sem gols contra o Equador.
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Foi curiosa e bem-vinda a menção à dificuldade que a família real britânica teria em arcar com tantos compromissos: além de Inglaterra, ainda teriam que dar conta dos jogos de Escócia, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Afinal, o Rei Charles é considerado chefe de estado em nada menos que 15 países.
Na realidade, essa daí anda bem afastada dos jogos de seleções. No futebol cotidiano, quem costuma dar as caras é o príncipe William, herdeiro imediato do trono. Recentemente, William foi flagrado comemorando efusivamente o título do Aston Villa na Europa League, clube do qual é torcedor fanático e declarado há muito tempo.
Há muitos outros países participantes da Copa onde ainda “resistem” as figuras monárquicas. Bélgica, Espanha, Noruega e Suécia na Europa; Catar, Arábia Saudita e Jordânia no Oriente Médio; Japão no extremo oriente; e Marrocos no Norte da África. Em suma, um terço da Copa do Mundo ainda chama alguém de “meu rei”.
A parte curiosa é que por muito tempo o futebol foi utilizado como símbolo de modernidade por elites de diversos países, especialmente aqueles que um dia foram colônias de potências europeias.
Ludopédio – para ler o jogo
Novas dicas de leitura: um livro para resgatar um momento histórico que coincide exatamente na mesma data de um feito histórico dessa Copa atual, além de um artigo que aprofunda o debate das migrações, abordado pelo blog na edição passada.
O jogo: Argentina x Inglaterra – 1986
Andrés Burgo – Dolores Editora (2022)
No dia 22 de junho de 1986, a Argentina de Maradona fazia história em uma Copa do Mundo, marcando dois gols – um antológico, outro celestial – contra a Inglaterra. Os argentinos carregavam a herança maldita da ditadura e o trauma da Guerra das Malvinas, e em campo, uma seleção desacreditada que depositava todas as esperanças em Maradona. Exatos 40 anos depois, Lionel Messi fez história – também em uma Copa do Mundo no México – alcançando 18 gols em Copas e se tornando o maior artilheiro da competição. No livro O Jogo, Andrés Burgo reconstrói minuto a minuto daquele Argentina e Inglaterra, mostrando que a lenda de Maradona foi construída ao longo daquela Copa. No dia 22 de junho de 2026, Messi escreveu seu próprio capítulo na mesma data. O camisa 10, que já havia se aproximado de “Dios” conquistando a última Copa, anotou mais um feito histórico para a sua carreira. Recomendar a leitura de O Jogo no dia em que Messi também fez história é um convite a perceber que as trajetórias de Maradona e Messi se cruzam – seja no peso de carregar uma nação, seja na expectativa de mais um título de Copa do Mundo.
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Artigo: Como a migração se tornou chave para o sucesso na Copa do Mundo
Ben Brindle – The Conversation (2026)
Dos 1.248 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026, 25% deles não nasceram no país que representam. Quase todos os atletas de Curaçao nasceram em outro país, o mesmo acontece com os atletas da República Democrática do Congo, e jogadores nascidos em outro país constituem a maioria em oito seleções. O artigo de Ben Brindle mostra que a migração é parte da história da Copa desde as primeiras edições, mas a edição de 2026 registra proporções tão altas até então. Para o autor, diversos fatores explicam isso: ancestralidade, residência ou dupla cidadania, mas também a herança colonial, conflitos recentes e a globalização. Em campo, seleções mais diversas tendem a ter melhor desempenho, como foi o caso do Marrocos, uma vez que a migração amplia o leque de talentos e traz estilos diferentes – como por exemplo a Suécia, que apesar de todo o elenco ter nascido no país, é uma das seleções mais diversas desta Copa, com jogadores de descendência tunisiana, marroquina, camaronesa ou kosovar. Sugerir este artigo é um convite a analisar as seleções para além das suas escalações – elas revelam histórias de deslocamento, colonização e pertencimento, além de questionar até que ponto a ideia de nação ainda faz sentido em um futebol cada vez mais globalizado.


