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Bielsa: o treinador que inspirou Guardiola tenta reinventar o Uruguai de Arrascaeta

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Marcelo Bielsa dá entrevista monossilábica na chegada do Uruguai para a Copa do Mundo
Pep Guardiola, Mauricio Pochettino, Jorge Sampaoli, Diego Simeone, Eduardo Berizzo, Gerardo Martino, Marcelo Gallardo e Mauricio Pellegrino, entre tantos outros.
Sabe o que todos esses grandes treinadores do futebol mundial têm em comum?
Marcelo Bielsa na veia!
O Argentino que conquistou a medalha de ouro olímpica com seu país em 2004; o campeonato argentino em 1992 com o Newell’s Old Boys e 1998 com o Vélez Sarsfield; e a Championship (equivalente à segunda divisão inglesa) com o Leeds United em 2019-20.
Como um treinador de pouquíssimos títulos na carreira, que há mais de vinte anos não conquista uma taça de primeira divisão pode ser tão importante para o esporte?
Sendo inovador, estudando o jogo obsessivamente e redefinindo o jogo.
Marcelo Bielsa deixará a seleção uruguaia após a Copa do Mundo
Sebastian Frej/Getty Images
Na história do futebol mundial, certamente há muitos técnicos que podem ser considerados melhores que ele. Mas, indiscutivelmente, nenhum causou tanto impacto no jeito de jogar ou influenciou tantos outros profissionais.
Ele recriou conceitos, transformou métodos de treinamento e influenciou uma geração inteira de profissionais que hoje dominam o futebol mundial.
Se tem jogo com pressão alta constante, intensidade física extrema, saída de bola organizada, marcação individual por encaixe no setor, treinamentos muito detalhados, e obsessão por análise tática, tem Bielsa.
Pep Guardiola é o aluno mais famoso – o discípulo que melhorou ainda mais os conceitos do mestre.
Pep Guardiola conquistou o seu sexto trofeu da Premier League na temporada 2023/24
Getty Images
Bielsa revolucionou comportamentos. Até treinadores que seguem caminhos diferentes — como Thomas Tuchel e Julian Nagelsmann — absorveram conceitos oriundos dessa escola.
Thomás Tuchel, atualmente na seleção da Inglaterra, estudou esse complexo estilo de jogo, não executa a maior parte das ideias, mas usa padrões de movimentação de jogadores sem a bola para gerar espaço na defesa adversária semelhantes aos de Bielsa.
Naggelsmann, comandante da seleção alemã, já disse em algumas entrevistas que sua maior influência é Pep Guardiola. Por associação, fica evidente o impacto do argentino em sua carreira.
De alguma forma, a gente pode afirmar que, no futebol atual, existem dois tipos de treinadores: os Bielsistas e aqueles que tentam neutralizar e combater o Bielsismo.
Claro que, nesse aspecto, essa figura de linguagem talvez fique mais precisa se fizermos esse exercício utilizando Guardiola como exemplo.
Já que o espanhol melhorou ainda mais tudo aquilo que aprendeu e hoje é o grande interventor do futebol.
Mas, foi a partir do Bielsismo que Guardiola sofisticou e universalizou uma maneira de jogar futebol.
A chegada do professor
O Uruguai vive talvez sua transformação mais profunda desde a geração de Óscar Tabárez.
Bielsa, ainda convivendo com imensa irregularidade, vem em busca de protagonismo coletivo através da imposição física, técnica e territorial.
Num primeiro momento, o impacto foi bem positivo. O Uruguai assimilou rapidamente seus conceitos e evoluiu bastante.
Mas, não demorou para aparecer alguns problemas de relacionamento entre ele e o grupo de jogadores pra o trabalho começar a derrapar.
Ainda assim, ele se sustentou no cargo, recuperou os bons resultados na reta final das Eliminatórias e garantiu classificação sem grandes sustos.
Valverde e Darwin Nuñez comemoram gol de empate do Uruguai com a Inglaterra
Reuters
O Uruguai quer ser mais protagonista nos jogos.
E essa mudança aparece especialmente na nova geração de jogadores. Federico Valverde, por exemplo, é a representação perfeita do futebol idealizado por Bielsa. Sua capacidade de pressionar, ocupar enormes espaços do campo e manter intensidade durante 90 minutos transformou o meio-campista do Real Madrid em peça central do plano de jogo. Não apenas pelo talento técnico, mas porque simboliza o motor competitivo que o modelo de jogo adotado exige.
A grande versatilidade do jogador o torna um coringa em campo: volante na saída de bola, meia por dentro, ala direito ou segundo atacante pra pressionar o adversário, em qualquer função, Valverde é o resumo do conceito de Bielsa em ação.
Outro protagonista desse projeto é Ronald Araújo. O jogador personifica a agressividade defensiva necessária para sustentar um modelo tão ousado. O zagueiro do Barcelona atua em campo aberto, faz perseguições longas e defende grandes espaços. Sua presença dá segurança para que a equipe jogue adiantada sem perder equilíbrio.
Ronald Araújo Almada Barcelona Atlético de Madrid
Gonzalo Fuentes/Reuters
Já Darwin Núñez talvez sintetiza os riscos e as virtudes do atual Uruguai pelo seu impacto tático.
Bielsa transformou Darwin em um atacante de profundidade permanente, alguém que empurra linhas defensivas para trás e cria caos físico nos adversários. Sua intensidade sem bola encaixa perfeitamente na lógica bielsista de agressão constante.
Mesmo que lhe falte refinamento técnico em alguns lances decisivos, Nuñez se tornou ainda mais protagonista na seleção.
Há o problema de sua pouca minutagem na temporada, ele perdeu espaço e jogou pouco no futebol saudita.
Inglaterra x Uruguai Solanke e Arrascaeta
Action Images via Reuters/Andrew Couldridge
Arrascaeta sofre
O meia do Flamengo Giorgian de Arrascaeta chegou a dizer que sofre com o estilo de jogo do Uruguai, mais pegado, de maior confronto individual e com zona de atuação pré-estabelecida.
Arrascaeta precisa respeitar rigorosamente as definições táticas de ocupação de espaço.
Mais próximo da área, o meia toca menos na bola do que quando está em ação no clube brasileiro, onde tem liberdade criativa e posicional.
Por atuar em um sistema focado em transições extremamente verticais, intensas e rápidas, ele participa menos da construção.
Arrascaeta foi direcionado a canalizar sua energia exclusivamente para o nível criativo avançado.
Uruguai descarta cortar Arrascaeta da Copa do Mundo
Outra atribuição é integrar o encaixe na pressão alta, uma exigência inegociável para o Bielsismo.
Porém, por mais divergente que possa parecer, Bielsa, talvez, tenha sido o técnico que mais deu espaço e importância a Arrascaeta na seleção uruguaia.
E ele sabe que, com Arrascaeta inspirado, o time ganha refinamento nas jogadas. Sem ele, vira apenas intensidade e aceleração.
A recuperação clínica e física do meia, que está em tratamento médico desde abril, é fundamental pra o Uruguai dar certo.
Inglaterra 1 x 1 Uruguai | Melhores momentos | Amistoso Internacional
Preocupações da Celeste
A seleção uruguaia tem questões que precisam de atenção.
O desgaste físico extremo imposto pelo modelo causa dúvidas para uma Copa do Mundo longa e desgastante. Há exemplos que apontam algumas equipes de Bielsa historicamente chegando ao ápice antes dos grandes momentos e sofrem com desequilíbrios defensivos e excesso de verticalidade. Essa é uma discussão recorrente em sua carreira.
E isso se agrava quando o número de lesões dos atletas foi tão alto: além de Arrascaeta, Darwin Nuñes, Bentacur, De la Cruz, Piquerez, Viña, Giménez, Cáceres e Rochet, por exemplo, estão ou estiveram em algum tratamento médico delicado nos últimos meses.
Sem contar com alguns resultados recentes que abalam a confiança, sobretudo a goleada de 5 a 1 sofrida diante dos Estados Unidos; e a – já citada – relação estremecida entre comandante e alguns comandados, que alegam punições severas, constrangimentos, isolamento de funcionários, desrespeito e falta de diálogo com o professor, algo que também acontece com alguma recorrência em sua vida profissional.
Bielsa é genial, mas relacionamentos nunca foi seu forte.
Arrascaeta marca golaço, mas Estados Unidos vence o Uruguai por 5 a 1 em amistoso
Bielsa e a síntese da contradição
Ele segue sendo aquilo que sempre foi: a incoerência ambulante do futebol moderno.
Não será uma grande surpresa se o time do Uruguai encaixar um jogo de alto nível, com um bom funcionamento dos conceitos do seu treinador e ter uma jornada especial no mundial.
Mas, ninguém duvida, que essa relação com os atletas pode desmoronar o trabalho e a Celeste voltar pra casa após um vexame.
Bielsa é isso! Um técnico capaz de fracassar em resultados e, ainda assim, vencer em ideias. Sua obsessão pelo jogo talvez nunca tenha produzido uma supremacia de títulos, mas moldou a forma como o futebol passou a ser pensado, treinado e executado nas últimas décadas.
E agora, no Uruguai, ele tenta mais uma vez provar que sua maior conquista nunca esteve nas taças, mas na capacidade de transformar.

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